Amor ao Redor do Mundo 2: Voltando para Casa

Sneak Peak do primeiro capítulo da continuação da história de Camila e Diego.

Ela não falava nada, era como se estivesse flutuando, com a cabeça em outro lugar. Decidi tentar mais uma vez.

– Fala comigo, caramba! Você nunca foi de me esconder nada, o que acontece com você? – estava ficando realmente furioso com aquela atitude dela.

– Atrasou – murmurou ela.

– Como assim? Atrasou o que?

– Minha menstruação não desceu. Na verdade, pensando bem agora, era para ter descido depois que saímos de Amsterdam.

Congelei no lugar. Sentei-me em frente a ela, de costas para a parede da cabine.

– Amsterdam? – perguntei com minha cabeça rodando a mil – A Amsterdam onde a gente…

Não terminei a frase, ficou no ar. Camila assentiu com a cabeça levemente.

– Eu acho… Acho que estou grávida, Diego.

Abri meus olhos e, pela pouca iluminação que o quarto recebia, percebi que era bem tarde – ou muito cedo. Peguei o celular para ver as horas. 04:46h. Suspirei passando a mão no rosto. Muito cedo.

Vinha sonhando com o dia em que minha vida (e a da minha melhor amiga) tinham entrado em colapso há duas semanas. Não era nada além da cena em que ela me dizia que estava grávida, notícia descoberta no dia em que casamos sem querer em um festival de uma cidade no interior da Irlanda.

Era a mesma cena, a mesma frase que ficava ecoando na minha cabeça há exatos 15 dias, todas as noites.

“-Eu acho… Acho que estou grávida, Diego”.

Argh! Ainda parecia mentira. Ainda parecia um alarme falso.

Mas não era. Olhei para a ruiva que estava deitada ao meu lado na cama. Ela também estava acordada.

– Não consegue dormir?

Ela negou com a cabeça. A luz do poste que ficava exatamente na frente da nossa janela iluminou o diamante em seu dedo anelar esquerdo, que repousava sobre a barriga já evidente pela blusa de pijama.

Em quatorze minutos eu teria que levantar para ir trabalhar. Já levava essa rotina há quatro meses, mas ainda não tinha me acostumado. Não depois de passar os últimos meses viajando e curtindo a vida.

A vida e todo o sentimento e confusão criados por Camila na minha cabeça e no meu coração. Tudo o que vivemos em todos os outros países da Europa pareciam tão distantes da realidade em que estávamos agora que eu nem conseguia acreditar na guinada que nossa vida tinha dado.

Depois que Camila disse que estava grávida, nós fomos na farmácia e gastamos quase 30 dos 250 euros que tinham sobrado de todo o dinheiro da viagem em testes de gravidez. Seria cômico se não fosse trágico: ela não poderia estar mais grávida.

Se a tira tinha que ficar rosa para dizer que ela estava grávida, ela ficava quase vermelha. Se a tira tinha que ficar azul, ela ficava quase preta. Se eram necessárias duas tiras, parecia que o pedaço de plástico que definiria nossa vida sempre tivera as duas fitas estampadas no visor.

Depois disso, passamos uma semana de puro pânico e terror. Estávamos casados, em outro país, numa cidade no meio do nada, sem dinheiro e teríamos um filho.

Era absolutamente tudo o que a gente precisava.

– O que está pensando? – eu ouvi a voz embargada de Camila. Devia ter chorado de novo.

Eu suspirei.

– Nada. Só estava lembrando do que eu precisava fazer quando chegasse no mercado.

Ela soltou um resmungo e ficou quieta novamente.

– E você?

Ela se manteve em silêncio uns minutos. Tinha certeza que estava pensando na mesma coisa que eu.

– Quando foi que as coisas entre a gente ficaram tão esquisitas?

– Quando foi que as coisas entre a gente ficaram tão esquisitas?

Falamos ao mesmo tempo. Eu sabia. Dei uma risada fraca.

– Está para nascer alguém que te conheça melhor do que eu, Cami.

Ela riu, nervosa de novo. Vi sua mão fazer um carinho na barriga.

– Eu odeio estar nessa situação, Di – ela disse, devagar – parece que tudo está errado. Mas eu fico tão feliz de você estar do meu lado…

Eu me senti bem com esse comentário, mesmo que estivéssemos tão absurdamente ferrados quanto podíamos. Meu coração sempre aceleraria à mínima menção de Camila à mim. Eu estava tão perdidamente apaixonado por ela que aceitaria qualquer coisa que ela dissesse para mim, por mais patético que isso fosse.

– Obrigado, eu acho – eu ri – eu também fico feliz por estar me ferrando com você. É bem reconfortante saber que eu não estou nesse barco sozinho.

– Eu… – ela sufocou um grito, a mão antes solta, agora firme na barriga.

– Que foi? – eu me alarmei – alguma coisa com o Bebê?

Ela fez que não com a cabeça e puxou minha mão, encostando-a em sua barriga.

– O que está acon… – e então eu senti.

Um leve cutucão. Quase nada para uma mente desavisada. Meus olhos se arregalaram e eu levantei, sentando ao seu lado na cama, com as pernas cruzadas. Estiquei a mão com cuidado e ela posicionou na área exata onde eu sentia meu bebê chutando sua barriga pela primeira vez.

Nós não tínhamos escolhido o nome ainda. Nem sequer sabíamos o sexo porque ele (ou ela) sempre estava tímido demais para abrir as pernas nos poucos ultrassons que fizemos com o pouco dinheiro que tínhamos guardado, então o chamávamos só de “Bebê”.

Quase seis meses de gestação e o bebê tinha se mantido quieto. Quase não se mexia e Camila tinha jurado que ele ainda não havia chutado. Mas agora ele chutava e eu podia sentir. Afastei a camiseta dela e abaixei, ficando na altura da barriga. Alguma reportagem se misturava na minha cabeça com recomendações médicas: fale com o bebê para que ele se acostume com a sua voz.

E então eu falei:

– Oi, bebê – senti a mão de Camila nos meus cabelos, fazendo um carinho gostoso, me fazendo querer deitar ali mesmo – eu sou seu pai. Não sei se você sabe disso, mas eu estou muito feliz de saber que você está bem. E que anda aguentando essas mudanças de humor da sua mãe de forma tão corajosa.

Eu disse que Camila fazia carinho no meu cabelo? Por agora eu levei um tapa. Dei risada dela. Quando o Bebê chutou novamente, como se tivesse entendido o que eu tinha dito, meus olhos se encheram d’água.

Levantei o olhar para Camila, que também chorava silenciosamente. Sorri pra ela, ela sorriu pra mim.

Por um momento, tudo de ruim que aconteceu no último ano simplesmente desapareceu. Cruamente falando, eu estava casado com a mulher que eu amava e ela estava grávida de um filho meu que era fruto de muito amor envolvido.

Por um momento, tudo pareceu pequeno demais, diante da imensidão que a minha família, a família que eu formei sozinho, apresentava na minha frente.

Naquele momento, às 05:10h de uma quarta-feira, no povoado de Lisdoonvarna, no interior da Irlanda, com exatos 1342 euros no bolso, sem condições de voltar para o Brasil e com o visto prestes a vencer, longe de tudo e todos, eu estava feliz.

Tinha tudo do que precisava aqui, na minha frente. Na palma da minha mão.

Sobre GabisNika | Gabriela Resende - Escritora

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