Brincando com Fogo

Alan sobrevivera a seu primeiro ano letivo na Academia de Magia Kalimera, mas não sem chamar a atenção da reitora para um fato muito importante: não era versado em magia. Mas agora, de férias, ele vai descobrindo sua essência mágica aos poucos

Alan estava bravo. Aquilo não estava dando certo.

Já tentara fazer de tudo, mas não funcionava.

Alan bufou.

No auge de seus 12 anos, ele não entendia porque não conseguia fazer seu foguete voar. Seguira todas as instruções que a professora Jenkins lhe dera, mas a pequena torre feita com papel alumínio e pintada cuidadosamente (ao seu ver) nem se mexia.

Seguiu as instruções novamente passo-a-passo, seguindo cada etapa com cuidado.

Nada.

Deu um grito de frustração. Seus pais eram grandes feiticeiros, da mais alta patente. Sua família, os Tremble, eram donos de quase metade das terras de Eylia. Mas o pequeno Alan não conseguira sua maturidade mágica aos cinco anos como qualquer criança filha de feiticeiros. Nunca fizera nada flutuar, nunca manipulara a água, não transfigurara seus brinquedos com comida ou vice-versa como a maioria das crianças fazia.

Aos onze, seus pais o matricularam na Academia de Magia Kalimera, que ficava no centro da cidade de Charimel. Mesmo com a pouca idade, ele seguira a superstição mundial de entrar no local com o pé direito, torcendo para que ninguém percebesse que Alan Tremble não era versado em magia. Rezava a todos os deuses que o ajudassem, mas nenhuma prece pareceu forte o suficiente.

Conseguira as melhores notas possíveis nas matérias teóricas, mas não conseguira sequer um único ponto nas matérias práticas. No fim do ano, antes que ele e Tina, sua irmã mais velha que passou mais tempo do ano longe do que perto dele, pudessem pegar o trem de volta para Eylia, seus pais foram convocados para uma conversa com a reitora, Madame Miníssi.

Richard e Carol Tremble entraram enquanto Alan e Tina estavam sentados na frente da mesa de Madame Miníssi. Alan mantinha os olhos baixos, sabendo que ele era o motivo da convocação enquanto Tina mantinha os braços cruzados em um típico chilique adolescente.

– Há algo errado com nossos meninos, Madame? – perguntou Carol, preocupada.

A reitora olhou para sua ex-aluna de forma amável.

– Não, querida – disse ela – nada que seja errado ou que esteja causando algum tipo de desconforto para nenhum dos dois. O motivo da minha convocação seria informa-los sobre uma condição especial do nosso querido Alan.

Alan olhou para a reitora, sentindo-se traído por ela, mesmo sabendo que o motivo da reunião era exatamente esse.

– Eu os chamei aqui porque gostaria de informar, caso vocês já não saibam, que o nosso doce Alan não conseguiu alcançar a pontuação necessária nas aulas práticas de magia, em nenhuma das matérias oferecidas pela Academia.

Alan não quis ver mais nenhuma reação de ninguém, somente abaixou a cabeça e encarou os sapatos. Curiosamente, ele notou que um cadarço do pé esquerdo estava desamarrado e que a barra da perna direita da sua calça estava meio dobrada. Cogitou a hipótese de arrumá-los, mas não quis se mexer, chamando mais atenção a si mesmo.

Quando Carol indagou o motivo, Alan levou a cabeça olhando para a mãe com um olhar curioso. Ele fitou então o pai, vendo se o mesmo iria falar algo, mas notou que Richard mal prestava atenção no que a reitora falava. Mesmo com a pouca idade, ele já percebia que seu pai não se importava muito com a educação dos filhos. Não conseguia nem entender o porque de ele estar ali, já que nunca participava de nada que envolvesse a família.

Madame Miníssi continuou:

– Durante todo o ano letivo, Alan não demonstrou nenhum tipo de inclinação à magia – ela olhou da expressão surpresa de Carol para a de desinteresse de Richard, fazendo com que Alan percebesse um lampejo de reprovação – Não conseguiu produzir uma única poção mágica, não conseguiu fazer nem um simples objeto flutuar nem mesmo atraí-los com um feitiço convocatório. Talvez fosse o caso de levarem ele aos curandeiros para que fosse examinado.

Carol realmente parecia chocada, mas Alan não entendia a expressão da mãe, visto que ela própria o havia tranquilizado dizendo que não precisava se preocupar com a sua “não-magia”, pois logo ela iria se aflorar.

– Realmente, professora, não sabia disso – disse ela – eu sabia que ele não tinha exposto nenhum tipo de ação mágica, mas pensei que a magia não tivesse se manifestado na minha frente ou que fosse se expandir aqui na Academia, com tantos incentivos ao redor dele.

Madame Miníssi assentiu com a cabeça e seguiram-se longos 30 minutos onde ela recomendava os melhores curandeiros “um é primo de um conhecido meu, é fantástico!”. Alan realmente cogitava se havia algo de errado com ele de verdade, mas o que o magoou mais, foi a única frase que Richard proferiu naquele dia:

– Se a senhora puder guardar essa informação até que possamos resolvê-la, eu agradeceria muito. Com certeza no próximo ano letivo, o menino já estará preparado.

“O Menino”. Era assim que Richard sempre se referia a Alan. Isso o incomodava desde muito pequeno, mas ele nunca questionou. Não tinha uma relação próxima com seu pai, jamais brincaram juntos, jamais jogaram bola ou algum jogo de tabuleiro juntos. Na verdade, Alan mal via o pai quando estava em casa e, de certa forma, ir para a Academia, o fizera se sentir mais confortável pois estava longe da presença de Richard.

Alan sentiu um calafrio advindo da pronúncia dessa simples frase e a sala da reitora ficou repentinamente gelada. O silêncio reinava e ele sentiu-se completamente insignificante naquele momento. A mais velha olhava um tanto pasma para ele, Carol nem mesmo o encarava. O silêncio só foi quebrado pelo espirro nada suave que Tina deu, já reclamando que estava muito frio e que queria ir para casa.

Eles então saíram da sala, mas Madame Miníssi chamou Alan e o entregou alguns pergaminhos. Alan iria perguntar, mas sua mãe o puxou pela mão e ele viu a reitora piscar um olho.

Ouviu uma voz em sua mente: “guarde com você”.

Não perdeu tempo e, enquanto a mãe o puxava até a estação de trem que ficava em frente aos portões da Academia e guardou-os dentro do casaco.

Alan lembrava-se desse dia como se fosse tivesse acontecido há duas horas atrás, mas pensava que jamais esqueceria do que acontecera em seguida. Tina fora passar as férias em sua avó e Richard dissera que tinha que passar algumas semanas em Amox para lidar com qualquer coisa que o trabalho o impelia (e os dias se transforaram em dois meses).

Carol que correra com ele para todos os curandeiros que ele já havia conhecido, mas a resposta era sempre a mesma: a magia viria naturalmente, com o passar do tempo.

– Mas ele já fez 12 anos! Está sete anos atrasado! – exclamava ela.

– Cada um tem seu tempo – diziam eles.

Ao chegarem em casa depois do décimo quinto dia que visitavam os curandeiros, depois de uma viagem longa voltando de Balichase, Alan tivera tempo para olhar os pergaminhos que Madame Miníssi o entregara. Não queria ver perto dos pais ou de Tina. A irmã já se gabava demais por saber magia e ele não, a mãe vivia preocupada com ele e o pai simplesmente não se importava.

Sentado no chão entre sua cama e a parede, ele abriu os pergaminhos só para encontrar…

Nada.

Não tinha nada escrito ali. Contou-os, eram cinco. Mas analisou-os mais de uma vez para encontrar a mesma coisa. Absolutamente nada, estavam todos em branco.

Alan virou e revirou todos os papeis frente, verso, ao contrário, de ponta-cabeça… Nada. Foi quando viu que caíra um pedaço pequeno de papel pequeno, avulso, escrito na bonita caligrafia da reitora:

Quando estiver pronto, eles irão se revelar a você. Boas férias.

Alan pensou por longos minutos, mas não conseguiu encontrar uma boa razão para aquilo. Quando estivesse pronto? Para que? E não se sentia pronto para nada. Sentou-se da cama novamente, puxando a vela que iluminava seu quarto próximo ao papel, vendo se encontrava algo através das fibras de couro entrelaçadas.

Foi quando, ao aproximar demais a vela do pergaminho, o mesmo começou a pegar fogo. Alan entrou em desespero e não sabia o que fazer. Olhava para o papel que largara queimando no chão e pensava no que fazer. O primeiro pensamento foi pegar um copo com água no banheiro, mas este era muito longe e ele não sabia como ir e voltar sem encontrar o quarto inteiro em chamas.

Com o coração disparado e tomado de uma coragem que ele não sabia que tinha, aproximou-se do papel que queimava e colocou a mão por cima do fogo, achando que assim, aplacaria as labaredas, já esperando a dor excruciante que viria.

Mas ela não veio. Muito pelo contrário.

O fogo abraçou sua mão e largou o papel intacto no chão, enquanto cobria seu braço inteiro. Alan não sentia nada além de cócegas por onde as labaredas passeavam. Viu seu suéter queimar com a proximidade do fogo, mas sua pele não sofreu qualquer tipo de dano…

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Sobre GabisNika | Gabriela Resende - Escritora

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