Kondaira

Ás vezes, temos certeza de nosso amor por alguém. Mas com Nannaloth e Vonnos é algo que transcende essa certeza.
Eles possuem o Kondaira, uma magia tão antiga e rara que a população de Southern Falls não acredita que seja real e a trata como lenda.
E mesmo sendo de elementos e universos diferentes, eles sabem que precisam estar juntos.
Só que eles não contavam que teriam desafios muito piores para enfrentar além de achar uma maneira de se tocarem sem ferir um ao outro.

Kondaira

Nannaloth deixou sua mente vagar nesse termo, que passou rápido demais pelas aulas de história e foi mencionado uma única vez na aula de feitiços.

Ela pesquisou muito sobre esse assunto na biblioteca mas as informações eram sempre superficiais. Basicamente se resumia a uma ligação poderosíssima entre dois seres, independentemente de raça, espécie, local de nascimento, classe social ou qualquer outra distinção que possa ser feita.

Diziam que quem era arrebatado por essa magia, ficava com uma marca pequena no pulso. Nanna levantou a manga da blusa. Pequena era eufemismo, parecia uma pinta ou uma sujeira. Inclusive, Lemony tentou limpar uma vez, esquecendo-se de que podia se queimar se encostasse em sua pele.

Tentou perguntar para seus pais sobre esse assunto mas eles não souberam dizer com precisão. Só disseram que era uma lenda antiga sobre amor verdadeiro mas que ninguém que eles conheciam no Deserto de Harlyn havia passado por isso.

Ela balançou a cabeça para afastar esse pensamento. Não resolvia tentar entender o que havia acontecido, só aceitar que ela estaria ligada à Vonnos para o resto de sua vida – e isso não era difícil de forma alguma, muito pelo contrário. Se sentia feliz por isso, por mais impedimentos que esse relacionamento tivesse, tanto físicos quanto familiares e sociais, ela não se importava porque sabia que Vonnos sentia o mesmo que ela sentia por ele.

Suspirou e fixou seus olhos na paisagem que a janela da Torre de Astronomia lhe apresentava naquele momento.

Nanna sempre amou os campos calmos que rodeavam a Academia de Charilmell. Analisar como o sol refletia no Grande Lago a fazia com que se sentisse calma, mesmo que o fundo de seu coração estivesse em chamas.

O ano letivo logo acabaria e Vonnos voltaria para Shellcross. Era seu último ano e ela ainda tinha que cumprir o último para que ela pudesse assumir seu romance proibido com o filho de um dos tritões mais importantes da cidade submarina de Southern Falls.

Nanna deu risada quando viu um par de olhos rosados a encarando lá do lago. Sabia que a visão de um tritão era melhor que a de uma daemon de fogo, mas realmente não entendia como Vonnos conseguia distingui-la. Ela estava há pelo menos quinhentos metros de distância, pelo o amor dos deuses!

Viu ele bater com o dedo no pulso direito, indicando que era hora da última aula de arco e flecha do ano, a última que teria com ele. E isso não seria um problema se ela não tivesse que continuar com o teatro na frente de todos.

Nanna suspirou, pegando sua mochila e tentando fazer com que as desculpas que ela e Vonnos davam um para o outro (e para si mesmos) seria o suficiente para aplacar a angústia que ela sentia.

Meu pai não vai aceitar um que um tritão namore uma daemon de fogo. Eu tenho um posto gigante para assumir em Shellcroft.

A voz de Vonnos surgiu em sua mente enquanto descia, ecoando o que ele disse um dia em que estavam abraçados no Grande Lago sob o efeito da Enaiórima de madrugada, a única maneira que tinham para que pudessem se tocar sem que um ferisse o outro.

Nanna continuou descendo, sentindo sua garganta queimar com a própria voz em sua mente, soando suas palavras em uma noite tranquila. O efeito da poção começava a passar e ela sentia o fogo voltar a fazer cócegas em seu peito, se espalhando por todo seu corpo.

Eu tenho todas as graças da Professora Hany como uma poderosa criadora de florestas de fogo. Elas são necessárias no Deserto de Harlyn, para manter o deserto, meu povo e minha família em segurança.

Nanna finalmente chegou na frente da arena onde a aula era ministrada e, antes mesmo de conseguir cumprimentar Juniper e Lemony, ouviu sua voz e a de Vonnos no dia em que perdeu sua virgindade com ele.

*-*

Ela estava deitada na cama dele, ainda tentando absorver tudo o que havia acontecido.

Se sentia completa por dentro, tudo na vida se encaixou e ela não conseguia entender a magnitude daquele sentimento. Se isso era o significado de ter Vonnos em sua vida, então ela faria o que fosse necessário para que isso se concretizasse. Seu punho coçava e ela não entendia o que era aquilo, mas não ligava. Não era importante naquele momento.

Talvez, em outras circunstâncias, ela teria prestado mais atenção mas, naquele momento, simplesmente não era relevante.

Mesmo que suas experiências sexuais tenham sido resumidas a uma única – aquela que terminara exatamente há alguns minutos atrás – Nanna sabia que o que sentira com ele não era só sexo. Tinha algo a mais. Algo com a delicadeza com que ele beijava seu pescoço com calma, ou com os olhares completamente direcionados aos seus olhos, ou talvez na forma como ele passara as mãos em seu corpo, como se ela fosse algum tipo de deusa.

Perdida em devaneios, Nanna pensou em levantar para abraça-lo mais uma vez, mas nunca achou que ele estaria daquela forma.

Vonnos estava afastado dela, sentado na ponta da cama. A princípio, pensou que ela teria feito algo errado, mas logo notou que era algo completamente diferente. Ele chorava, com os braços apoiados nos joelhos, talvez pensando que ela ainda estava adormecida.

Ficou intrigada mas, um segundo depois, Nanna entendeu o motivo da tristeza dele porque era a mesma que ela sentia naquele momento. Ela se levantou e tocou as costas azuladas dele, só para que ele se virasse e a olhasse, os olhos rosados tristes e seu rosto riscado com o caminho que suas lágrimas faziam.

Vonnos passou a mão pelos cabelos escuros e olhou em seus olhos, fazendo com que ela sentisse seu desespero.

– Ninguém vai entender nosso amor. Vão falar que um vai enfraquecer o outro.

*-*

Nanna balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento de sua cabeça. O amor que ela sentia não iria a enfraquecer, muito pelo contrário. Ela sentia que, perto dele, ela estava mais forte do que nunca.

– Atrasada, Nanna? – perguntou Juniper, tentando fazer graça e a puxando de volta para a realidade – sei bem que estava com Egroshan.

Nanna sentiu seu rosto esquentar com o comentário da amiga. Egroshan era um feiticeiro do último ano, talvez o maior inimigo de Vonnos. O menino conversava bastante com ela durante as aulas e Vonnos sempre externava seus ciúmes quando eles estavam a sós e essas brigas eram reais. Tão reais que Nanna quase pôs fogo no dormitório dele.

Automaticamente, seu olhar procurou o do tritão, encontrando-o tão cheio de mágoa que ela quis dizer alguma coisa, mas sabia que não podia.

– Deixa de besteira, Jun – ela ergueu o caderno de Transfiguração que tinha em suas mãos – Eu estava estudando na Torre de Astronomia. Ou esqueceu que temos prova depois do almoço?

O sorriso presunçoso da bruxa sumiu e Nanna ouviu Lemony dar risada. As duas começaram a discutir sobre a prova mas logo se calaram. O Professor Lagen chegou e os colocou para praticar os tiros.

Inicialmente, tinham que somente tentar acertar a maçã em cima de uma mesa há pelo menos quatro metros de distância. Nada muito difícil.

O exercício seguinte seria acertar a fruta em cima de uma das tendas dos munchkins que viviam nos jardins da Academia. Nanna sempre achou um absurdo eles deixarem que os alunos destroçarem suas casas, mas ela foi assegurada pelo Reitor Kanilis que eles eram bem remunerados para isso, quando o questionou em uma das aulas de Botânica.

Na cabeça dela, nem se ela recebesse dez milhões de zuz deixaria que alunos malucos – e adolescentes – usassem sua casa como arena de treino. Ela ainda estava distraída pensando nos munchkins quando uma flecha passou zunindo por sua orelha, quase a acertando.

Ela sentiu o fogo característico de sua raiva começar a crescer dentro dela e virou para xingar qualquer um que quase a tivesse acertado quando viu o autor do disparo.

Vonnos estava com o braço apoiado em Fenkas, seu colega repetente. Ele sorria cínico para ela, mas ela podia ver seu olhar divertido.

Ela entendeu a deixa. A aula estava acabando e era hora de começar com o teatrinho de todos os dias, para que eles pudessem ficar sozinhos no campo, como era o costume.

– Quem você pensa que é, garoto? – ela gritou para ele, fingindo irritação.

– Você que deveria prestar atenção por onde anda, foguinho.

Nanna estreitou seus olhos para Vonnos e ela o viu engolir em seco discretamente. Ela odiava esse apelido e ele o pronunciava só para perturbá-la.

– Você é um idiota e eu te odeio tanto, seu tritão estúpido! Você é simplesmente o pior arqueiro de toda Southern Falls!

Ele deu uma risada cínica. Nanna sentia seu interior explodir em chamas, mas não podia deixar seu cabelo explodir na frente de todos. Nem era de verdade.

– Eu sou um mau arqueiro? Ah, pare com isso, Nannaloth – Vonnos se aproximou dela e deu uma piscada que passaria despercebida por qualquer um que não tivesse os olhos vidrados nos deles. Aquele era o sinal de que as pessoas começavam a dispersar – Você sabe que me ama.

Nanna sentiu seu coração pular uma batida, mas não sabia se teria forças de negar mais uma vez que o amava, mesmo que esse fosse o script de quase todos os dias na Academia. Nem os professores aguentavam mais as discussões dos dois e nem tentavam mais apartar, só deixavam que eles se matassem.

Ela respirou fundo e juntou todas as forças que tinha para soltar uma das maiores mentiras que já havia contado na vida.

– Eu jamais te amaria, seu nojento! – Nanna gritou e, dessa vez, vendo que estava de costas para todos que fugiam de suas brigas com o tritão, ela não conseguiu segurar um sorriso quando viu o olhar descrente de Vonnos.

“Nojento?”, ele mexeu os lábios e ela conseguiu ler ali o que ele quis dizer. Ela abriu mais o sorriso e levantou os ombros discretamente.

– O sentimento é mútuo, vilã covarde! Eu não te amaria nem se você fosse a última pessoa na terra, seu lixo!

Nanna achava que teria um infarto se segurasse mais a risada, ainda mais com os olhos rosados de Vonnos quase se enchendo de lágrimas de tanto que segurava seu próprio acesso de riso.

– E eu não te amaria nem se… Ah! Eles já foram? – questionou quando percebeu que estavam a sós.

– Sim, acho que sim.

Nanna sorriu e foi em sua direção enquanto procurava na bolsa o pote de creme feito com Enaiórima e passando ao redor da boca e nas mãos, as sentindo esfriar quase automaticamente. Passou o pote para Vonnos que fez a mesma coisa.

– Graças aos deuses. Desculpa, amor, você sabe como é, reputações a proteger e tal… – e então se deu conta de algo – “vilã covarde”?

Vonnos explodiu em uma gargalhada, mas Nanna praticamente se jogou em cima dele para beijá-lo. Não importava do que ele a chamava na frente dos outros. Importava como ele a chamava quando eles estavam a sós. Isso bastaria se ela pudesse ter isso todos os dias para o resto de sua vida.

Eles não poderiam se abraçar por muito tempo senão as roupas dele pegariam fogo, mas ele a apertou pela cintura retribuindo o beijo, mesmo que por poucos segundos.

Eles se separaram, sorrindo um para o outro.

– Sem problemas, meu anjo. Eu te amo. Ainda tenho que te derrubar de propósito no Salão de Refeições amanhã, não é? – indagou Nanna.

Vonnos pensou por um instante.

– Ah, droga, eu tive que mudar isso para sexta. Thessalise pediu minha ajuda para as aulas de Manipulação de Fogo – ele revirou os olhos – segundo ela, eu tenho muita experiência com esse assunto.

– Sério? – Nanna levantou uma sobrancelha como se dissesse “Que piada mais sem graça”.

Vonnos riu, o que fez com que Nanna quisesse mais que tudo poder abraça-lo, mas ela não andava com a poção na bolsa, somente o creme que ela disfarçava como hidratante. “Fogo demais acaba com a minha pele”.

Pff… Não acreditava com Juniper e Lemony engoliram aquela baboseira toda. Talvez, se elas tivessem prestado mais atenção nas aulas de Anatomia Fantástica, saberiam que a pele de um daemon é gerada a partir do fogo, então não tinha como seu próprio elemento desidratar sua pele. Ela nem precisava de hidratação, pelos deuses!

Vonnos se aproximou dela novamente e roubou-lhe outro beijo, mas a soltou na hora e soltou um gemido de dor.

Nanna arregalou os olhos.

– Me desculpa!

O tempo de efeito do creme era infinitamente menor que o da poção completa. Mas ele deu risada.

– Quem brinca com fogo é para se queimar, não é?

Nanna colocou as mãos na cintura e ficou olhando para ele, querendo brigar com ele, mas a bolha enorme que subiu na hora em sua boca a deixou assustada.

– Que lindo momento de casal.

Nanna e Vonnos viraram com tudo, assustados, mas era só Thessalise. Nanna soltou o ar que ela nem percebeu que prendera e encarou a melhor amiga – e cunhada.

– Não assusta a gente assim, Thessa. Quase morri do coração – disse ela – além disso, seu irmão é um idiota que me beijou depois do creme ter passado o efeito e agora queimou a boca.

Nanna torcia as mãos, preocupada com o tritão. Mas sabia que Thessa poderia ajudá-lo.

– Quem brinca com fogo… – Vonnos e Nanna reviraram os olhos, completando a frase que Vonnos tinha acabado de proferir.

– Quer se queimar, já sabemos – disseram juntos.

– Tem algo para a queimadura dele? – perguntou Nanna mais nervosa ainda.

Vonnos e Thessa eram tritão e sereia, criaturas aquáticas. Eles não podiam ter qualquer contato com qualquer temperatura alta que as consequências seriam dez vezes piores que em bruxas, elfos ou humanos comuns. Qualquer bolha de queimadura aumentava de tamanho em um tempo consideravelmente menor e deixavam cicatrizes maiores.

Já Nanna não poderia deixar que uma única gota de água encostasse em sua pele. Esse era mais um dos motivos que complicava tanto o relacionamento deles.

Tudo era contra, até mesmo as próprias leis da natureza.

Thessa tirou da bolsa uma pomada mas, antes de passar, ela murmurou um encantamento, que já ajudou a diminuir bastante o tamanho da bolha. Com a pomada e alguma sorte, não restaria cicatriz para contar história.

– O que veio fazer aqui, Thessa? – perguntou Vonnos depois que ela terminou de emplastrar seu lábio inferior com a pomada.

Ela se manteve em silêncio e Nanna viu que algo não estava certo.

– O que houve, Thessa? O que aconteceu?

Thessalise ainda se manteve em silêncio por alguns segundos.

– Papai mandou uma carta, Von…

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Sobre GabisNika | Gabriela Resende - Escritora

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